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| O menino que gosta muito de teatro |
27 de Março – Mais um Dia Mundial de Teatro…
Ontem, um pouco por todo o País, festejou-se este dia com Mostras de teatro escolar, teatro universitário, festivais de teatro amador e apresentação de espectáculos de Companhias de teatro, que até chegam a abrir as suas portas ao público em geral, para visitas guiadas aos bastidores, na tentativa de aproximação do Teatro com o Povo.
Inserido também eu, neste contexto, artístico e educativo, também cumpri neste fim-de-semana, a divulgação de duas peças encenadas por mim. Uma com um teor pedagógico com a temática da Cidadania – “Morrer ou viver”, representada por alunos do 9ºano da opção de Expressão Dramática e a outra, do Grupo de Teatro Experimental de Lagoa – Ideias do Levante, abordando o fenómeno da migração das famílias (mais desfavorecidas social e economicamente, mas nem por isso, mais infelizes) do meio rural, para o litoral em busca de melhores condições de vida. Nos dois dias, distintos em termos de público, atmosfera, concentração e comprometimento dos actores, tivemos casa cheia e, cheirou-se a tradição, cultura e teatro, muito próximo das pessoas das terras do interior algarvio.
Hoje, sinto-me cansado. Não me apeteceu festejar esse dia. Então porquê? Era a mesma coisa que celebrar a emancipação da mulher, no dia Internacional da Mulher, enquanto a violência doméstica continua a aumentar, ou celebrar o dia Mundial das Artes, numa sociedade que não consegue mobilizar pessoas, nem iniciativas interventivas e consistentes que possam discutir e avaliar as condições de trabalho dos profissionais da Educação Artística. Aconteceu mesmo. Não tive mesmo vontade de festejar o dia de ontem, como já o fiz noutras alturas, com boas tertúlias com amigos e actores. As razões são múltiplas, e até dariam quase para a argumentação de uma tese. Mas em jeito de desabafo, ficam aqui algumas razões e inquietações, dos porquês:
Porque, eu vivo num País que dá mais valor a castings de teatro/telenovelas, do que a formação teatral. Semanalmente, somos invadidos nas nossas casas por programas televisivos à procura de jovens com (pseudo)talentos na arte de representar, prometendo promissoras carreiras. Porque, vivo numa sociedade que considera as pessoas, que ensaiam duas ou três vezes por semana, (umas horitas)profissionais de teatro. Porque esquece-se facilmente das pessoas que dedicaram uma vida inteira ao teatro. Essas sim, verdadeiros profissionais e mestres de teatro. Porque, investe mais em peças de teatro importadas da capital, com actores, que para além de telenovelas, filmes, publicidade e programas televisivos, ainda têm tempo de representarem peças em formato de “rapidinha” nos teatros municipais e regionais espalhados pelo País, cobrando por uma actuação, o mesmo que o meu grupo de teatro amador recebe de apoio financeiro em quatro ou cinco anos. O pior, e modéstia à parte, é que em muitos dos casos, a qualidade da criação artística, não se encontra tão distante, como a sua catalogação por considerados, peritos de teatro. Porque, não existe reconhecimento pelos grupos de teatro amadores e regionais, que sem financiamentos, não se resignam, nem desistem de fazer teatro para as comunidades locais. Porque, os encenadores da maioria dos grupos de teatro amadores regionais , não são reconhecidos como os da capital. No entanto, percebem tanto de produção de espectáculos, desde da logística e planificação do mesmo com entidades culturais e comunitárias, luminotecnia, sonoplastia, cenografia e finalmente de formação e direcção de grupo de de actores, como os outros. Já notaram que, são sempre os mesmos, que de repente, passam de intervenientes de teatro para críticos de teatro nos tablóides. Passado uns tempos, já se tornaram directores artísticos de grandes produções, e quando damos conta, já são outra vez assessores da cultura, realizadores de óperas e cinema? Porque, as regras de atribuição de subsídios aos grupos de teatro não são justos e exemplares, em relação à qualidade técnica e artística. Porque, ainda existem “padrinhos” no tecido estatal, que sem fiscalização séria e acompanhamento dos projectos no terreno, protegem durante anos a fio, os mesmos parceiros de teatro por conveniência. Porque se investe tanto em Lisboa pela sua tradição histórica, depois no Porto pela sua natureza cosmopolita e só depois em regiões como Bragança, Coimbra e Faro. Porque, para fazer aquilo que faço e ganhar um ordenado pouco digno, investi imenso no meu currículo. No entanto, ninguém sabe das competências pessoais, éticas e profissionais, dos Secretários Gerais da Cultura e da Educação, que saltam de pasta em pasta ministerial, passando por vários sectores de governação, ao sabor de cada legislatura, restando para os intervenientes na área, uma selva legislativa, confusa e pantanosa, sem inovação de formação, captação e fixação de públicos, de forma a garantir continuidade e diversidade cultural e teatral. Foi por isto tudo, que não me apeteceu festejar.
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| Grupo de teatro Experimental - Ideias do Levante, Lagoa |
Mas como gosto imenso daquilo que faço, vou continuar a fazer teatro. Este menino vai ainda hoje, passar por duas escolas do Concelho de Silves, para ensinar outros meninos a brincarem ao teatro. Posteriormente, vai encenar uma peça de teatro em Lagoa, com outros meninos lindos, que também adoram fazer teatro. Finalmente, já mesmo quase a terminar o dia, estarei numa sala quentinha, concentrado e disponível para brincar sériamente ao teatro, com uns meninos de um outro grupo de teatro amador e de pesquisa teatral da universidade do Algarve em Faro - Apeste.
Então talvez consiga dizer outra vez amanhã: Viva o Teatro!
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| Grupo de teatro amador e pesquisa teatral - Apeste, Faro |