quinta-feira, 17 de março de 2011

Lá vamos nós outra vez...Dançar!

Vivemos mais uma vez, um período conturbado e, de desconfiança sem reflexão e orientação na aplicação das leis em relação à Educação Artística nas escolas. Numa altura, em que o lema é poupar e cortar à custa das disciplinas de Formação Cívica e Artística, entrámos novamente numa encruzilhada de sucessivas e repentinas reformas no sistema educativo em Portugal. Em consequência de uma delas por despacho ministerial, os professores de técnicas especiais, incluindo os professores de Teatro e/ou Dança foram impedidos de leccionarem mais do que 11 horas lectivas, obrigando os professores a concorrerem a mais do que uma escola, na esperança de obterem um horário completo e um ordenado digno. A consequência é leccionarem em mais que uma escola, na maioria das vezes muito distantes umas das outras, como é o meu caso.
Nas escolas públicas do Algarve, contam-se pelos dedos de uma mão, as escolas que ainda oferecem a disciplina de Dança (Educativa) a alunos do segundo e terceiro ciclo. Neste sentido, sou um dos últimos sobreviventes, que ainda tem o prazer de possuir várias turmas com esta disciplina na componente curricular. E ainda bem. Principalmente, pelos olhares que estes meninos e meninas me oferecem semanalmente, completamente motivados e empenhados na exploração de movimentos e sensações em relação com o corpo, espaço, objecto e ritmo. O que mais gosto, é falar com eles depois e ouvir as suas percepções e inquietações.
De inicio, para todos eles, o termo “Dança” é ainda muito conotado com a palavra “Ballet” ou outras danças performativas que se encontram “na moda”, voltadas para a realização de espectáculos de entretenimento e coreográficos.
No entanto, aos poucos vão percebendo que a Dança Educativa não lhes propõe qualquer coreografia rígida, mas sim liberdade de movimentos estéticos e naturais. Não é relevante o ensino de técnicas, mas a espontaneidade de movimentos, que até por vezes pareçam disparatados e disformes. Através da dança, pode-se compreender melhores processos no domínio da expressão corporal, sócio afectivo e cognitivo, tentando interpretar e compreender relações directas ou indirectas entre o indivíduo e o mundo que o rodeia.Nas aulas, em vez de composições coreografadas de Hip-Pop, proponho-lhes algo mais simples, como saltar de alegria, correr com pavor, movimentar o corpo em movimentos sem utilidade imediata aparente. O importante, é que sintam prazer nos movimentos - Isto também é Dança!

Posteriormente entram em explorações de movimentos expressivos e esteticamente repetidos como: saltar, voar, rodopiar. Paralelamente solicito movimentos funcionais de transmissão de necessidades fisiológicas e psicológicas: comer, beber, amar, agredir, etc.
O nosso corpo é cada vez mais um projecto social quanto à forma, peso, postura, saúde entre outras, e raramente somos incentivados a arriscar, a tentar de novo, a variar os nossos movimentos ou até mesmo a descobrir as nossas próprias vozes neles contidas. A dança é hoje, uma forma de arte situada no corpo humano. O corpo do bailarino é simultaneamente o terreno da arte e do artista. No fundo, uma forma de arte tão necessariamente orgânica, como parte integrante da formação do indivíduo, acima de tudo, pela fruição e vivência artística, que, mediante uma maior exigência e tomada de risco, permitem ao jovem aluno conhecer-se melhor a si próprio, o outro, e todo o meio social envolvente mais próximo.


Adoro ser professor destas áreas. Só tenho pena que esta instabilidade profissional e vulnerabilidade política, conduza mais uma vez a inclusão destas disciplinas de Educação Artística (Dança e Teatro) nas escolas do Ensino básico e secundário, a uma perspectiva de mero enriquecimento ou entretenimento curricular para os alunos. Para ajudar a festa, o Decreto de Lei nº18 de Fevereiro deste ano, por razões meramente economicistas, diz que estas disciplinas de Educação Artística, só poderão fazer parte da componente curricular se, não houver necessidade de recrutamento adicional, ou seja, se forem somente leccionadas por pessoal do quadro de escola. Lá vamos nós outra vez...Dançar!

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