segunda-feira, 6 de junho de 2011

Como se avalia uma peça de teatro?

Há anos que me pergunto a mim mesmo: Como se avalia uma peça de teatro? É pelo vigor das palmas? Ou pela ovação do público, que recebemos no final do espectáculo? Ou será pelos inúmeros parabéns que recebemos dos amigos, simpatizantes do Teatro, dos nossos familiares e até dos profissionais ligados à Cultura (e aos subsídios)?

Honestamente, prefiro que não me digam nada. Dêem um tempo a si próprios, para digerir as ideias e a conceptualização do espectáculo em sintonia com as suas próprias convicções e emoções estéticas, éticas e também técnicas Aproveita-se muito mais, porque no Teatro não se deita nada fora! Ou também damos os parabéns a um arquitecto depois de elaborar mais uma planta de um edifício, ou, a um contabilista que terminou mais uma escritura, ou, a um padeiro que acabou de fazer mais um pão?

Esta questão, ainda me inquietou mais, quando ontem após mais uma estreia de uma produção teatral minha, uma amiga me perguntou: Então e o que diz o encenador? – Respondi-lhe: Foi estranho. Ficaram todos em silêncio, a olharem para mim - actores e amigos.

É que ao fim de alguns anos, com algum repertório de teatro acumulado e investimento contínuo em estudos teatrais, começo a reflectir mais sobre o estado das coisas…A este estado, uns chama-lhe de velhice, outros, de maturidade. Outros tantos, de sabedoria. Fiquem com o que gostarem mais.

O que eu sei, é que a maioria dos intervenientes de teatro, não têm uma ideia concreta do teatro, nem definem um caminho. Tudo se faz ao sabor do vento, das vontades e das disponibilidades da vida de cada um. Experimenta-se tudo. Improvisa-se tudo. Qualquer pessoa que tenha uma ideia gira pode encenar. Não importa a idade, a experiência e a formação. Se houver uma estratégia da comunidade cultural a garantir as despesas, ainda melhor.

Paralelamente, em vez de se mobilizar forças e iniciativas para reunir encenadores, actores, cenógrafos, técnicos de luz e de som para discutirem a sua condição de profissionais de teatro, organizam-se feiras da cidadania e mostras de teatro escolar e amador, com extensos programas de actividades e de peças em jeito de catalogação de fim-de-semana. Não convém faltar umas barraquinhas de comes e bebes, para os intervalos, não vá o “português” morrer de fome ou de sede.

Será que estes meios são propícios para se fazer e entender Teatro na íntegra? É neste contexto que podemos averiguar se o público de teatro, sabe avaliar o que é presença activa, projecção de voz e verdadeiramente contracenar?

O facto é que o teatro, ao longo destes anos todos, vai resistindo a tudo e a todos. As pessoas não: Umas vão saindo, ou porque não se aguentam neste cenário absurdo, ou porque o teatro não consegue alimentar uma família.

O que vale, é que ainda existem alguns resistentes, que ainda têm vontade de tratar o teatro a sério…Que não seja só de entretenimento de massas, mas que especialize os interessados e eduque os curiosos.

Que venham muitas mais peças, em que o elogio seja merecido. Nem que seja com o silêncio.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Tenho Saudades da Pina Bausch...




Nos anos de1996 a 98, quase a terminar a minha licenciatura na Alemanha, comecei a confrontar e a reconhecer o trabalho de Pina Bausch, que reviveu o espírito da dança alemã, ao criar nos anos 70, o conceito de Teatro-Dança, numa altura em que a concepção do ensino público em geral, ainda estavam alienadas a uma “suprema Educação e Formação europeia”, ou seja, caracterizada por uma “desprezível cultura em expressão corporal” influenciada pelo forte desenvolvimento da industrialização e civilização europeia”, a seguir aos períodos das duas guerras mundiais.
Aos poucos, o Teatro vai entrando na minha formação académica, em forma de articulação com projectos teatrais, como foi o caso da concepção da peça Teatro–Dança: “Mambo Mortal”, realizado ainda nesse País. Esse espectáculo, encenado por mim, teve como base prática, a minha tese de licenciatura, subordinado ao tema – “A intervenção da expressão corporal em projectos interculturais de Teatro- Dança com jovens de minorias étnicas.”
Passado já alguns anos, e após muitas outras experiências e formações nesta área artística,  fui assistir a uma Conferência sobre Beckett na Universidade do Algarve, desta vez com a coreógrafa Madalena Vitorino. Gostei imenso e fez-me sentir saudades da Pina Bausch.  Perguntava-me a Madalena: Ainda lecciona Dança? Ao qual eu respondi-lhe: Sim, ainda há duas ou três escolas do Ensino Oficial Básico e Secundário no Algarve, que resistem em oferecer umas horitas, para esta disciplina. Eu tenho três turmas e inseri Rudolf Laban e Pina Bausch na minha planificação. Os miúdos adoram as aulas, e até têm um pouco de teoria, perspectiva histórica da Dança e metodologias da Dança, com a integração de composições coreográficas, segundo as concepções de Pina Bausch. Ai que bom trabalhar assim - Didáctica e método alemão, em pleno Algarve desconhecido. Sim, porque ainda há secretários gerais de  Educação, que não fazem a mínima ideia onde fica a escola de Algoz. Saberão quem foi Pina Bausch? Que faleceu o ano passado e adorava Portugal? 
Resumidamente, aqui fica a minha concepção de dança preferida, quer a leccionar, quer a coreografar ou encenar projectos performativos de Dança/Teatro.
O termo “Dança” é ainda hoje, muito frequentemente conotado com a palavra “Ballet” ou outras danças performativas que se encontram “na moda”, voltadas para a realização de espectáculos de entretenimento.
Na Dança Educativa não há qualquer coreografia rígida, mas sim liberdade de movimentos estéticos e naturais. Não é relevante o ensino de técnicas, mas a espontaneidade de movimentos, que até por vezes pareçam disparatados e disformes. Por outras palavras, os seus movimentos não são regidos por qualquer concepção estética de expressão corporal. Na Dança Espectáculo, existe geralmente uma composição coreográfica, que é repetida e ensaiada até atingir um grau de perfeição e mecanização desejada.
O conceito de Dança de Pina Bausch, situa-se num nível intermédio destas duas interpretações, mais propriamente pelo sentido profissional que atingiu esta Companhia de Dança internacional. É que contrariamente ao conceito de Dança Espectáculo, Pina Bausch considera que não lhe interessa como o ser humano se move, mas sim o que os comove a mover, a dançar.
Curiosamente, o conceito de Dança de Pina Bausch entra em contradição com as definições mais clássicas de dança. O aspecto de partida do método de Pina Bausch não se situa, ao contrário das convenções artísticas que se manifestam por meio de um vocabulário tradicional, em códigos artísticos como por exemplo, repetição de movimentos expressivos e esteticamente bonitos: saltar, voar, rodopiar. Ela vai mais longe, distinguindo-se com códigos culturais, no seu sentido antropológico como por exemplo, movimentos funcionais e de transmissão de necessidades fisiológicas e psicológicas: comer, beber, amar, agredir, segurar um cigarro, matar um animal, fazer a barba, entre muitas outras.
Esta coreógrafa nunca se questiona antes dos espectáculos, como é que a suas criações vão correr. Se vão ser bem aceites ou não pelo público. O espectador é convidado a realizar a sua própria interpretação, o seu juízo de valor, gerindo os seus próprios impulsos e as suas experiências estéticas. As suas criações, não são histórias corridas completas. Ela recorre a uma espécie de colagens de diversas cenas, que normalmente acontecem ao mesmo tempo e em paradoxo. Há quem lhe chame de “Patch-Work”, como que uma manta de retalhos, que se interliga com um determinado ambiente através da música, que por sua vez, nos leva para o caminho da imaginação.
A própria afirmava que, as sua criações eram provenientes de uma colecção de montagens, que não segue uma forma narrativa linear, mas uma sequência de múltiplos desenvolvimentos cénicos, como que fragmentos de uma multiplicidade de artes.
A dificuldade de interpretar imediatamente a mensagem que Pina Bausch nos quer passar, está na ausência de códigos de dança tradicionais a que estamos habituados. Ela transfere esses códigos para aquilo, a que chama de códigos gestuais. Portanto, é a coerência corporal que nos é posta em causa. Aliás nem sequer possuímos uma gramática universal para decifrá-la. Pina Bausch recusa-se a fornecer explicações ou até significações. Ela fala de emoções e influências que nada tem a ver com a racionalidade.



segunda-feira, 28 de março de 2011

A propósito do Dia Mundial de Teatro



O menino que gosta muito de teatro
 27 de Março – Mais um Dia Mundial de Teatro…
Ontem, um pouco por todo o País, festejou-se este dia com Mostras de teatro escolar, teatro universitário, festivais de teatro amador e apresentação de espectáculos de Companhias de teatro, que até chegam a abrir as suas portas ao público em geral, para visitas guiadas aos bastidores, na tentativa de aproximação do Teatro com o Povo.
Inserido também eu, neste contexto, artístico e educativo, também cumpri neste fim-de-semana, a divulgação de duas peças encenadas por mim. Uma com um teor pedagógico com a temática da Cidadania – “Morrer ou viver”, representada por alunos do 9ºano da opção de Expressão Dramática e a outra, do Grupo de Teatro Experimental de Lagoa – Ideias do Levante, abordando o fenómeno da migração das famílias (mais desfavorecidas social e economicamente, mas nem por isso, mais infelizes) do meio rural, para o litoral em busca de melhores condições de vida. Nos dois dias, distintos em termos de público, atmosfera, concentração e comprometimento dos actores, tivemos casa cheia e, cheirou-se a tradição, cultura e teatro, muito próximo das pessoas das terras do interior algarvio.
Hoje, sinto-me cansado. Não me apeteceu festejar esse dia. Então porquê? Era a mesma coisa que celebrar a emancipação da mulher, no dia Internacional da Mulher, enquanto a violência doméstica continua a aumentar, ou celebrar o dia Mundial das Artes, numa sociedade que não consegue mobilizar pessoas, nem iniciativas interventivas e consistentes que possam discutir e avaliar as condições de trabalho dos profissionais da Educação Artística. Aconteceu mesmo. Não tive mesmo vontade de festejar o dia de ontem, como já o fiz noutras alturas, com boas tertúlias com amigos e actores. As razões são múltiplas, e até dariam quase para a argumentação de uma tese. Mas em jeito de desabafo, ficam aqui algumas razões e inquietações, dos porquês:
Porque, eu vivo num País que dá mais valor a castings de teatro/telenovelas, do que a formação teatral. Semanalmente, somos invadidos nas nossas casas por programas televisivos à procura de jovens com (pseudo)talentos na arte de representar, prometendo promissoras carreiras. Porque, vivo numa sociedade que considera as pessoas, que ensaiam duas ou três vezes por semana, (umas horitas)profissionais de teatro. Porque esquece-se facilmente das pessoas que dedicaram uma vida inteira ao teatro. Essas sim, verdadeiros profissionais e mestres de teatro. Porque, investe mais em peças de teatro importadas da capital, com actores, que para além de telenovelas, filmes, publicidade e programas televisivos, ainda têm tempo de representarem peças em formato de “rapidinha” nos teatros municipais e regionais espalhados pelo País, cobrando por uma actuação, o mesmo que o meu grupo de teatro amador recebe de apoio financeiro em quatro ou cinco anos. O pior, e modéstia à parte, é que em muitos dos casos, a qualidade da criação artística, não se encontra tão distante, como a sua catalogação por considerados, peritos de teatro. Porque, não existe reconhecimento pelos grupos de teatro amadores e regionais, que sem financiamentos, não se resignam, nem desistem de fazer teatro para as comunidades locais. Porque, os encenadores da maioria dos grupos de teatro amadores regionais , não são reconhecidos como os da capital. No entanto, percebem tanto de produção de espectáculos, desde da logística e planificação do mesmo com entidades culturais e comunitárias, luminotecnia, sonoplastia, cenografia e finalmente de formação e direcção de grupo de de actores, como os outros. Já notaram que, são sempre os mesmos, que de repente, passam de intervenientes de teatro para críticos de teatro nos tablóides. Passado uns tempos, já se tornaram directores artísticos de grandes produções, e quando damos conta, já são outra vez assessores da cultura, realizadores de óperas e cinema? Porque, as regras de atribuição de subsídios aos grupos de teatro não são justos e exemplares, em relação à qualidade técnica e artística. Porque, ainda existem “padrinhos” no tecido estatal, que sem fiscalização séria e acompanhamento dos projectos no terreno, protegem durante anos a fio, os mesmos parceiros de teatro por conveniência. Porque se investe tanto em Lisboa pela sua tradição histórica, depois no Porto pela sua natureza cosmopolita e só depois em regiões como Bragança, Coimbra e Faro. Porque, para fazer aquilo que faço e ganhar um ordenado pouco digno, investi imenso no meu currículo. No entanto, ninguém sabe das competências pessoais, éticas e profissionais, dos Secretários Gerais da Cultura e da Educação, que saltam de pasta em pasta ministerial, passando por vários sectores de governação, ao sabor de cada legislatura, restando para os intervenientes na área, uma selva legislativa, confusa e pantanosa, sem inovação de formação, captação e fixação de públicos, de forma a garantir continuidade e diversidade cultural e teatral. Foi por isto tudo, que não me apeteceu festejar.
Grupo de teatro Experimental - Ideias do Levante, Lagoa
 Mas como gosto imenso daquilo que faço, vou continuar a fazer teatro. Este menino vai ainda hoje, passar por duas escolas do Concelho de Silves, para ensinar outros meninos a brincarem ao teatro. Posteriormente, vai encenar uma peça de teatro em Lagoa, com outros meninos lindos, que também adoram fazer teatro. Finalmente, já mesmo quase a terminar o dia,  estarei numa sala quentinha, concentrado e disponível para brincar sériamente ao teatro, com uns meninos de um outro grupo de teatro amador e de pesquisa teatral da universidade do Algarve em Faro - Apeste.
Então talvez consiga dizer outra vez amanhã: Viva o Teatro!

Grupo de teatro amador e pesquisa teatral - Apeste, Faro

domingo, 20 de março de 2011

Encenação - A coisa em vez da coisa...

Já vos aconteceu, assistirem a uma peça de teatro, em que, o que os actores dizem e representam, não vos diz nada? Em que mesmo, que façamos um esforço imaginativo para percebermos a mensagem do texto, perdemos o fio à meada da história? Consequentemente, começamos a ficar irrequietos na cadeira, olhamos para o relógio ou vasculhamos novamente o folheto da sinopse, para tentar juntar as peças do "puzzle" da peça?
Quando isto acontece, o actor "debita" texto. Não representa. Não está a contar uma história. Não consegue enviar uma determinada mensagem, nem consegue enviar imagens para o público, que muito depressa se cansa de brincar sozinho, desinteressando-se rapidamente pelo jogo.
A visualização de imagens, daquilo que diz, uma a uma, é um recurso primordial do actor, quer na compreensão do texto, enquanto estuda fora de cena, quer, enquanto o diz em cena. A visualização de cada palavra, antes de a dizer, evita também os "atropelos" no texto e regulariza o ritmo da suas falas/das cenas/da peça, dando segurança ao actor em cena e, acima de tudo - presença activa.

Stanislavski, diz no seu livro Construção da Personagem, que falar é desenhar imagens visuais. Para o actor uma palavra não é apenas um som, é uma evocação de imagens, portanto, quando estiver a contracenar em cena, não diga as falas porque estão no texto, mas diga-as ouvindo-as, para quem as diz.



Contagie os seus companheiros! Contagie a pessoa com a qual estiver a contracenar! Diga-as com alma. Por vezes, até é mais simples, do que pensamos. É só dizer o que os textos dos autores de teatro nos oferecem para dizer. Sem grandes psicologias, traquejos ou malabarismos teatrais. Simples, não significa fácil. É necessário estarmos presentes, disponíveis e sermos humildes, quando o encenador nos corrige e nos possa dizer constantemente: Não é isso. Não vás por aí! As directizes do encenador são como conselhos de um irmão mais velho - Por vezes dói, mas sabemos que é para nosso bem. É por amor [ao teatro].

quinta-feira, 17 de março de 2011

Lá vamos nós outra vez...Dançar!

Vivemos mais uma vez, um período conturbado e, de desconfiança sem reflexão e orientação na aplicação das leis em relação à Educação Artística nas escolas. Numa altura, em que o lema é poupar e cortar à custa das disciplinas de Formação Cívica e Artística, entrámos novamente numa encruzilhada de sucessivas e repentinas reformas no sistema educativo em Portugal. Em consequência de uma delas por despacho ministerial, os professores de técnicas especiais, incluindo os professores de Teatro e/ou Dança foram impedidos de leccionarem mais do que 11 horas lectivas, obrigando os professores a concorrerem a mais do que uma escola, na esperança de obterem um horário completo e um ordenado digno. A consequência é leccionarem em mais que uma escola, na maioria das vezes muito distantes umas das outras, como é o meu caso.
Nas escolas públicas do Algarve, contam-se pelos dedos de uma mão, as escolas que ainda oferecem a disciplina de Dança (Educativa) a alunos do segundo e terceiro ciclo. Neste sentido, sou um dos últimos sobreviventes, que ainda tem o prazer de possuir várias turmas com esta disciplina na componente curricular. E ainda bem. Principalmente, pelos olhares que estes meninos e meninas me oferecem semanalmente, completamente motivados e empenhados na exploração de movimentos e sensações em relação com o corpo, espaço, objecto e ritmo. O que mais gosto, é falar com eles depois e ouvir as suas percepções e inquietações.
De inicio, para todos eles, o termo “Dança” é ainda muito conotado com a palavra “Ballet” ou outras danças performativas que se encontram “na moda”, voltadas para a realização de espectáculos de entretenimento e coreográficos.
No entanto, aos poucos vão percebendo que a Dança Educativa não lhes propõe qualquer coreografia rígida, mas sim liberdade de movimentos estéticos e naturais. Não é relevante o ensino de técnicas, mas a espontaneidade de movimentos, que até por vezes pareçam disparatados e disformes. Através da dança, pode-se compreender melhores processos no domínio da expressão corporal, sócio afectivo e cognitivo, tentando interpretar e compreender relações directas ou indirectas entre o indivíduo e o mundo que o rodeia.Nas aulas, em vez de composições coreografadas de Hip-Pop, proponho-lhes algo mais simples, como saltar de alegria, correr com pavor, movimentar o corpo em movimentos sem utilidade imediata aparente. O importante, é que sintam prazer nos movimentos - Isto também é Dança!

Posteriormente entram em explorações de movimentos expressivos e esteticamente repetidos como: saltar, voar, rodopiar. Paralelamente solicito movimentos funcionais de transmissão de necessidades fisiológicas e psicológicas: comer, beber, amar, agredir, etc.
O nosso corpo é cada vez mais um projecto social quanto à forma, peso, postura, saúde entre outras, e raramente somos incentivados a arriscar, a tentar de novo, a variar os nossos movimentos ou até mesmo a descobrir as nossas próprias vozes neles contidas. A dança é hoje, uma forma de arte situada no corpo humano. O corpo do bailarino é simultaneamente o terreno da arte e do artista. No fundo, uma forma de arte tão necessariamente orgânica, como parte integrante da formação do indivíduo, acima de tudo, pela fruição e vivência artística, que, mediante uma maior exigência e tomada de risco, permitem ao jovem aluno conhecer-se melhor a si próprio, o outro, e todo o meio social envolvente mais próximo.


Adoro ser professor destas áreas. Só tenho pena que esta instabilidade profissional e vulnerabilidade política, conduza mais uma vez a inclusão destas disciplinas de Educação Artística (Dança e Teatro) nas escolas do Ensino básico e secundário, a uma perspectiva de mero enriquecimento ou entretenimento curricular para os alunos. Para ajudar a festa, o Decreto de Lei nº18 de Fevereiro deste ano, por razões meramente economicistas, diz que estas disciplinas de Educação Artística, só poderão fazer parte da componente curricular se, não houver necessidade de recrutamento adicional, ou seja, se forem somente leccionadas por pessoal do quadro de escola. Lá vamos nós outra vez...Dançar!

sábado, 12 de março de 2011

A Criatividade (I)

A Criatividade está presente em todas as áreas da nossa mente e do nosso ser e, é o melhor exemplo da natureza dinâmica da nossa inteligência, partindo do princípio, que não há pessoas mais inteligentes do que outras. Existem é pessoas com maior competência técnica e intuição criativa para superar determinados problemas ou situações de conflito individuais e colectivos.
A Criatividade é movida pelas nossas paixões e aptidões individuais. Quando gostamos daquilo que fazemos, não aplicamos toda a nossa energia e criatividade sem limites nos nossos projectos? Quando gostamos verdadeiramente de alguém, não investimos todas as possibilidades e alternativas para a obtenção de um propósito amoroso?
A Criatividade é um passo dado para além da imaginação. Tal como no amor, é um passo dado no escuro. Requer que façamos algo, em vez de ficarmos de braços cruzados a pensar num determinado assunto. Esta reflexão, vem a propósito de um convite efectuado ao grupo de Teatro Experimental- Ideias do Levante, no qual sou encenador, para participarmos numa Gala Cultural no Auditório Municipal de Lagoa. Nessa altura, não tínhamos nenhuma peça de teatro pronta, nem o elenco todo completo para a peça que iríamos estrear. Faltava-nos o noivo(!) de Um pedido de Casamento, de Tchekov.

Nestas situações é complicado negar a nossa participação a quem nos patrocina e nos apoia. Na Cultura e nas Artes, os meios são sempre tão escassos...Tinha de gerir a situação!
Ou melhor, há que criar ideias novas, remover resistências e arregaçar as mangas: A solução encontrada foi, o encenador actuar de noivo e improvisarmos os diálogos, pegando nos subtextos (intenção), e a cena de representação (10-15 min.) foi toda improvisada. Nem sapatos ainda tínhamos para os noivos! O resultado foi espantoso, ao mergulhar num processo criativo completamente imprevísivel, num auditório completamente esgotado. No fundo, o que aconteceu foi um equilíbrio de actores- público, através de uma aceitação interactiva. Quando as pessoas gostam de algo, não avaliam de imediato essa mesma coisa- aceitam-na.
Hoje, estou convencido, que são estas situações que nos ajudam a pensar e a agir de maneira diferente. Saímos do comodismo e do formato habitual. É o que acontece ainda hoje muito nas escolas. Em Expressão musical, as crianças passam aulas e aulas nas mesmas escalas de guitarra e flauta. Na Educação Visual - ai deles que não dominem a perspectiva ou pintem fora do círculo.
Até na Matemática isso acontece. Mesmo que hoje em dia, já se ensine de maneira muito diferente, da que aprendi- era um esquema interminável de fómulas que já tinham uma solução, e em que as minhas únicas hipóteses era acertar ou errar. Deixei de gostar de Matemática, e logo me catalogaram- Tu és bom é para as Artes! Poucos são os professores que arriscam mais nos alunos. O mais importante nas reuniões de avaliação, é que as tabelas e os cronogramas de critérios de avaliação batam certo à centésima.
Pois, voltando à minha história desta Improvisação de Teatro, aparentemente insignificante para alguns, talvez mais importante para as mentes criativas, só pretendo realçar que a receita esteve em três pessoas de personalidades e profissões diferentes, mas que agiram com um propósito comum: Todos eles gostam muito do que fazem. Todos eles estavam disponíveis. Todos eles revêem-se no Teatro.

terça-feira, 1 de março de 2011

A viragem no Teatro - Mestrado em Teatro e Educação


UNIVERSIDADE DO ALGARVE - Oficina de Teatro/ Turma de 2005/06; Docentes: Mestra de Teatro actriz Manuela de Freitas, o Músico José Mário Branco e o Prof. Dr. António Branco.

Logo na primeira lição, verifiquei que o caminho para o Teatro sem artifícios, não era fácil...Mas, a Luz e a Energia estavam ali.


Exercício Final de Teatro: NÓS

A inspiração é uma grande dama, que só entra numa casa arrumada...

 Abandonar as nossas máscaras do quotidiano e mergulhar na nossa mais profunda intimidade sem truques ou maneirismos.

Aprender a parar e a estar disponível, com uma presença activa permanente e vigilante. Construir um verdadeiro colectivo. OBRIGADO. MUITO OBRIGADO.