segunda-feira, 2 de abril de 2012

(Ainda) vale a pena investir no teatro!


(Ainda) vale a pena investir no teatro!

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA do "Jornal da Madeira" | Fevereiro de 2012 | Por Agência Lusa

Numa altura em que se discute exaustivamente na região, sobre a falta de condições financeiras para futuras programações artísticas para 2012. Num cenário de cortes orçamentais em todos os setores da sociedade civil, como é o caso da Saúde, Desporto, Educação e Turismo é evidente que a Cultura sendo conectada, desde longa data, como parente pobre no desenvolvimento social, também tem consequências. Veja-se o caso do teatro D. Maria II cujo antigo diretor artístico, o ator e encenador Diogo Infante, depois de ver chumbada a sua proposta de 1,2 milhões de euros, incompatibilizou-se com a Secretaria de Estado da Cultura tendo-se não só demitido, como também passou o testemunho ao pedagogo teatral e encenador João Mota, que aceitou o desafio de organizar a temporada deste ano com meros 725mil euros.

Com este exemplo de «con(gestão) cultural» não pretendo avaliar se está certo ou errado, nem me pronunciar sobre quem possa ter razão. Mais do que julgar, pressinto, que já entrámos na era da reutilização, rentabilização e reorganização forçosamente criativa, quer de recursos humanos, quer de meios estruturais na conceção de projetos performativos, no âmbito da educação artística, sejam eles uniformes ou de cariz multidisciplinar.

Neste seguimento urge-me relatar uma ida à peculiar sala de espectáculos do Teatro Municipal Baltazar Dias para assistir à estreia da peça de teatro "A Fúria de Shakespeare", pelo grupo Porventura teatro, do Gabinete Coordenador de Educação Artística, com encenação de Miguel Vieira. Uma exibição cuja assistência esgotou nos dois dias que esteve em palco Confesso que saí de lá preenchido. Matei o jejum de meio ano de teatro amador. Com todo o respeito e admiração que possuo por todos os outros grupos de teatro amador espalhados pela região.

No meu entender, é assim que tem de ser. Paga-se um bilhete, para assistir a um espectáculo, seja de que área artística for e não se questiona mais sobre se valeu a pena. Sem mágoas ou angústias, por ver mal gasto o dinheiro dos contribuintes.
Vi um cenário simples e rotativo. Reutilizável e bem aproveitado. Os figurinos são da casa e já têm alguns anos de uso, mas continuam a servir para os atores brilharem. E esse feito, foi conseguido pelos catorze atores, na íntegra. Qualquer grupo de teatro que consiga verdadeiramente proporcionar prazer a um público, rompendo a cortina do aborrecimento, já justifica a sua existência.

No entanto, não posso deixar de destacar o coletivo que, para mim, foi o grande vencedor deste projeto. Enquanto intervenientes foram fiéis às suas personagens com uma permanente energia, com sistemáticas entradas e saídas de cena, durante todo o espetáculo com uma frescura de energia em cascata, com base no prazer de «brincar ao teatro». Para citar Peter Brook: “o ator que acredita poder um dia representar a personagem de Hamlet tem uma energia ilimitada.” Foram exemplos disso, as aclamações em voz alta, fora de ritmo ou bizarras, os monólogos sem fluência ou até mesmo as contracenas com diálogos rígidos e recheados de inocência.

Por sua vez, o encenador não só mostrou maturidade cénica em optar por uma criação teatral despida de preconceitos, revelando todos os defeitos de um ator amador com reflexos condicionados, ou seja, “tudo aquilo que um ator não deve fazer em palco”, como também conseguiu encenar uma comédia baseada em arquétipos sociais, distribuídos pelos atores, como quem tem «olho clínico» para o teatro.

Por tudo isto, continuo a insistir que (ainda) vale a pena investir no teatro!
Rui Mimoso
Coordenador Equipa de Animação do GCEA, professor de teatro e encenador.

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