Este ano, particularmente inserido num contexto educativo, artístico e impulsionador de formação de teatro, o Governo Regional da Madeira, através da Secretaria Regional da Educação e Recursos Humanos, tem vindo a promover criações teatrais indiscutivelmente de boa qualidade, tendo sempre presente a «matéria humana» e o trabalho do ator, que confere realidade, consistência e densidade a tudo quanto acontece no palco.
Durante março de 2012, um pouco por toda a Região Autónoma da Madeira, foram realizados diversos eventos culturais para impulsionar o teatro, elevando esta arte efémera e também imortal, através de mostras de teatro escolar, teatro sénior, festivais de teatro amador e apresentação de espetáculos de companhias de teatro, com o objetivo de reforçar a aproximação do teatro com o público em geral. Foi exemplo disso mesmo a aluna Beatriz Melim de 17 anos, vencedora absoluta do Concurso Jovens Artistas 2012, que se realizou a 25 de março no Fórum Machico.
Beatriz Melim apresentou uma adaptação de um texto de Raúl Brandão “O Avejão”, com a colaboração dos professores das classes de teatro Miguel Vieira e Paula Rodrigues.
Por uma questão, de gratidão e respeito por estes e, tantos outros jovens atores e amantes do teatro, disponíveis para a aprendizagem de praticas teatrais, com quem me tenho cruzado dentro e fora do âmbito da Temporada Artística 2012 dedico aqui, abertamente, algumas reflexões. «Será que teremos de reinventar o teatro?». «Será que não nos apropriamos (quase) sempre dos mais antigos princípios e métodos de teatro, como prática vocacional e profissional?». «Será que não é possível gerir escassos recursos, não cedendo ao essencial do teatro?»
«Mas afinal o que é o essencial no teatro? Serão somente os figurinos, os cenários, o reforço musical, as luzes e a escolha de um bom texto?»
Como admirador incondicional da visão do encenador inglês Peter Brook exponho que o ato teatral assenta num espaço vazio, em que alguém atravessa esse espaço contando uma história, enquanto outra observa. Nada mais é necessário para que ocorra o «fenómeno teatro».
Peter Brook nasceu em Londres em 1925. Ao longo da sua carreira distinguiu-se em diferentes géneros como o teatro, a ópera, o cinema e a literatura. As suas produções destacam-se pelas suas pesquisas permanentemente atualizadas de aspetos culturais e integrativos, em busca do mínimo na compreensão teatral, quer em termos cenográficos, quer em relação ao trabalho do ator (estética), tendo em consideração a alegria e o prazer de brincar ao teatro (ética) estruturado em torno de um encenador - formador (técnica).
Com a perfeita consciência da sua importância para o reforço de uma encenação de teatro, não aceito encarar a escassez de meios técnicos e financeiros como obstáculo à criação teatral. Muito pelo contrário, fornece excelentes condições para que o trabalho de criação invista no essencial, nos atores: no seu poder de convicção, na sua imaginação, na sua dádiva. Por esta razão valorizo a disponibilidade daquela jovem artista, com toda a sua fragilidade, perante uma plateia preenchida de espectadores, possibilitou-nos compreender mais a fundo o aspeto principal no teatro – «a matéria humana e a entrega dos atores».
Como foi possível isso acontecer, apesar das insuficiências do cenário, dos adereços, da luminotecnia, dos figurinos?
Seguramente porque a atriz tinha trabalhado para acreditar que, durante o tempo da sua apresentação, ela era, realmente, aquela personagem, «habitante de carne e osso deste universo», tão complexo (a vida e a morte) e, sobretudo, totalmente coerente e credível para todos nós.
Termino, com a convicção de que, sempre que o objetivo principal de alguém (monólogo) ou de um grupo de pessoas que se juntam «seriamente a brincar» para contarem histórias significativas à comunidade a que se dirigem – isso é TEATRO.
Rui Mimoso
Professor do Ensino Superior
(área do Teatro) e encenador