terça-feira, 10 de abril de 2012

A propósito do Dia Mundial de Teatro-2012



Este ano, particularmente inserido num contexto educativo, artístico e impulsionador de formação de teatro, o Governo Regional da Madeira, através da Secretaria Regional da Educação e Recursos Humanos, tem vindo a promover criações teatrais indiscutivelmente de boa qualidade, tendo sempre presente a «matéria humana» e o trabalho do ator, que confere realidade, consistência e densidade a tudo quanto acontece no palco.
Durante março de 2012, um pouco por toda a Região Autónoma da Madeira, foram realizados diversos eventos culturais para impulsionar o teatro, elevando esta arte efémera e também imortal, através de mostras de teatro escolar, teatro sénior, festivais de teatro amador e apresentação de espetáculos de companhias de teatro, com o objetivo de reforçar a aproximação do teatro com o público em geral. Foi exemplo disso mesmo a aluna Beatriz Melim de 17 anos, vencedora absoluta do Concurso Jovens Artistas 2012, que se realizou a 25 de março no Fórum Machico.
Beatriz Melim apresentou uma adaptação de um texto de Raúl Brandão “O Avejão”, com a colaboração dos professores das classes de teatro Miguel Vieira e Paula Rodrigues.
Por uma questão, de gratidão e respeito por estes e, tantos outros jovens atores e amantes do teatro, disponíveis para a aprendizagem de praticas teatrais, com quem me tenho cruzado dentro e fora do âmbito da Temporada Artística 2012 dedico aqui, abertamente, algumas reflexões. «Será que teremos de reinventar o teatro?». «Será que não nos apropriamos (quase) sempre dos mais antigos princípios e métodos de teatro, como prática vocacional e profissional?». «Será que não é possível gerir escassos recursos, não cedendo ao essencial do teatro?»
«Mas afinal o que é o essencial no teatro? Serão somente os figurinos, os cenários, o reforço musical, as luzes e a escolha de um bom texto?»
Como admirador incondicional da visão do encenador inglês Peter Brook exponho que o ato teatral assenta num espaço vazio, em que alguém atravessa esse espaço contando uma história, enquanto outra observa. Nada mais é necessário para que ocorra o «fenómeno teatro».
Peter Brook nasceu em Londres em 1925. Ao longo da sua carreira distinguiu-se em diferentes géneros como o teatro, a ópera, o cinema e a literatura. As suas produções destacam-se pelas suas pesquisas permanentemente atualizadas de aspetos culturais e integrativos, em busca do mínimo na compreensão teatral, quer em termos cenográficos, quer em relação ao trabalho do ator (estética), tendo em consideração a alegria e o prazer de brincar ao teatro (ética) estruturado em torno de um encenador - formador (técnica).
Com a perfeita consciência da sua importância para o reforço de uma encenação de teatro, não aceito encarar a escassez de meios técnicos e financeiros como obstáculo à criação teatral. Muito pelo contrário, fornece excelentes condições para que o trabalho de criação invista no essencial, nos atores: no seu poder de convicção, na sua imaginação, na sua dádiva. Por esta razão valorizo a disponibilidade daquela jovem artista, com toda a sua fragilidade, perante uma plateia preenchida de espectadores, possibilitou-nos compreender mais a fundo o aspeto principal no teatro – «a matéria humana e a entrega dos atores».
Como foi possível isso acontecer, apesar das insuficiências do cenário, dos adereços, da luminotecnia, dos figurinos?
Seguramente porque a atriz tinha trabalhado para acreditar que, durante o tempo da sua apresentação, ela era, realmente, aquela personagem, «habitante de carne e osso deste universo», tão complexo (a vida e a morte) e, sobretudo, totalmente coerente e credível para todos nós.
Termino, com a convicção de que, sempre que o objetivo principal de alguém (monólogo) ou de um grupo de pessoas que se juntam «seriamente a brincar» para contarem histórias significativas à comunidade a que se dirigem – isso é TEATRO.

Rui Mimoso
Professor do Ensino Superior
(área do Teatro) e encenador

segunda-feira, 2 de abril de 2012

(Ainda) vale a pena investir no teatro!


(Ainda) vale a pena investir no teatro!

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA do "Jornal da Madeira" | Fevereiro de 2012 | Por Agência Lusa

Numa altura em que se discute exaustivamente na região, sobre a falta de condições financeiras para futuras programações artísticas para 2012. Num cenário de cortes orçamentais em todos os setores da sociedade civil, como é o caso da Saúde, Desporto, Educação e Turismo é evidente que a Cultura sendo conectada, desde longa data, como parente pobre no desenvolvimento social, também tem consequências. Veja-se o caso do teatro D. Maria II cujo antigo diretor artístico, o ator e encenador Diogo Infante, depois de ver chumbada a sua proposta de 1,2 milhões de euros, incompatibilizou-se com a Secretaria de Estado da Cultura tendo-se não só demitido, como também passou o testemunho ao pedagogo teatral e encenador João Mota, que aceitou o desafio de organizar a temporada deste ano com meros 725mil euros.

Com este exemplo de «con(gestão) cultural» não pretendo avaliar se está certo ou errado, nem me pronunciar sobre quem possa ter razão. Mais do que julgar, pressinto, que já entrámos na era da reutilização, rentabilização e reorganização forçosamente criativa, quer de recursos humanos, quer de meios estruturais na conceção de projetos performativos, no âmbito da educação artística, sejam eles uniformes ou de cariz multidisciplinar.

Neste seguimento urge-me relatar uma ida à peculiar sala de espectáculos do Teatro Municipal Baltazar Dias para assistir à estreia da peça de teatro "A Fúria de Shakespeare", pelo grupo Porventura teatro, do Gabinete Coordenador de Educação Artística, com encenação de Miguel Vieira. Uma exibição cuja assistência esgotou nos dois dias que esteve em palco Confesso que saí de lá preenchido. Matei o jejum de meio ano de teatro amador. Com todo o respeito e admiração que possuo por todos os outros grupos de teatro amador espalhados pela região.

No meu entender, é assim que tem de ser. Paga-se um bilhete, para assistir a um espectáculo, seja de que área artística for e não se questiona mais sobre se valeu a pena. Sem mágoas ou angústias, por ver mal gasto o dinheiro dos contribuintes.
Vi um cenário simples e rotativo. Reutilizável e bem aproveitado. Os figurinos são da casa e já têm alguns anos de uso, mas continuam a servir para os atores brilharem. E esse feito, foi conseguido pelos catorze atores, na íntegra. Qualquer grupo de teatro que consiga verdadeiramente proporcionar prazer a um público, rompendo a cortina do aborrecimento, já justifica a sua existência.

No entanto, não posso deixar de destacar o coletivo que, para mim, foi o grande vencedor deste projeto. Enquanto intervenientes foram fiéis às suas personagens com uma permanente energia, com sistemáticas entradas e saídas de cena, durante todo o espetáculo com uma frescura de energia em cascata, com base no prazer de «brincar ao teatro». Para citar Peter Brook: “o ator que acredita poder um dia representar a personagem de Hamlet tem uma energia ilimitada.” Foram exemplos disso, as aclamações em voz alta, fora de ritmo ou bizarras, os monólogos sem fluência ou até mesmo as contracenas com diálogos rígidos e recheados de inocência.

Por sua vez, o encenador não só mostrou maturidade cénica em optar por uma criação teatral despida de preconceitos, revelando todos os defeitos de um ator amador com reflexos condicionados, ou seja, “tudo aquilo que um ator não deve fazer em palco”, como também conseguiu encenar uma comédia baseada em arquétipos sociais, distribuídos pelos atores, como quem tem «olho clínico» para o teatro.

Por tudo isto, continuo a insistir que (ainda) vale a pena investir no teatro!
Rui Mimoso
Coordenador Equipa de Animação do GCEA, professor de teatro e encenador.