segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"Uma Peça de Teatro" de Erland Josephson

Reflexão sobre "Uma peça de teatro":
No teatro não se deita nada fora!
No dia 12 de Março de 2008, uma quarta-feira, estreou-se mais uma encenação a meu cargo e com produção da Associação Cultural Ideias do Levante, no Auditório Municipal de Lagoa. Desta vez, a escolha foi a peça de Erland Josephson - "Uma peça de teatro". Um texto muito rico, que nos fala das intrigas, desconfianças e competição entre actores nos bastidores do Teatro. Tal como todos os clássicos, têm de ser representados com a maior profundidade pelos actores: Neste caso, não duvido, que se empenharam ou que se entregaram ao que lhes pedi. Não deram foi o salto para o abismo - que é o Teatro... Tantas vezes gratificante, outras vezes tão cruel...

Não é fácil representar a fronteira entre a vida e o teatro, como não é fácil representar a fronteira do amor e do ódio. Fica-nos a experiência e o crescimento através dos erros técnicos e a vontade ética de querer fazer melhor. O texto pedia-nos uma peça de teatro simples, limpa de clichés e truques revisteiros. O teatro é como o céu repleto de estrelas. Está lá tudo. Vê-se tudo. Não precisa de apetrechos!
Realizámos um ensaio assistido por um grupo de alunos da Licenciatura em Estudos Artísticos e Culturais da universidade do Algarve. Uma delas disse-me: "Eu até pensei que ainda estivessem a definir os cenários! Constatei, com algum espanto, o pouco cenário existente!"

A entrada foi mais uma vez gratuita. Estavam presentes cerca de 230 pessoas. Eu sou apologista da ideia de que a qualidade da peça não pode ser diferente, mesmo que estivessem 5 ou 10 espectadores. O empenho de toda a equipa técnica, tem que ser a mesma, quer sejam amadores ou profissionais.

Durante a ante-estreia da peça da parte da tarde, foi impressionante ver alunos do secundário a chocarem-se com duas ou três palavras do texto de um grande senhor do teatro, que passo a citar: "mer**" ou "não me fo**s" e, esses mesmos miúdos não conseguirem estar quarenta e cinco minutos em silêncio, num espectáculo de teatro, sem mexerem no telemóvel, levantarem-se para ir à casa de banho, saírem antes de acontecer o "Black-Out". À saída do espectáculo infiltrei-me no meio deles. Pela conversa, até apanharam o essencial da história e questionam-se sobre quem era Rosencrantz? Pois é, não conhecem Shakespeare ( e tantos outros mestres de Teatro europeu). Não é de estranhar. Nas escolas fala-se muito dos contributos do teatro. Percebe-se muito pouco das práticas teatrais.
Finalmente, fica aqui a minha palavra de admiração e respeito pela coragem, pela humildade e pelo prazer visível em todos os actores, ao quererem contar esta história. Como outro amigo me escreveu: "Eu acho que as pessoas não saíram de lá vazias. E quem saiu, não soube aproveitar." - No teatro não se deita nada fora!




Sem comentários:

Enviar um comentário