Nos anos de1996 a 98, quase a terminar a minha licenciatura na Alemanha, comecei a confrontar e a reconhecer o trabalho de Pina Bausch, que reviveu o espírito da dança alemã, ao criar nos anos 70, o conceito de Teatro-Dança, numa altura em que a concepção do ensino público em geral, ainda estavam alienadas a uma “suprema Educação e Formação europeia”, ou seja, caracterizada por uma “desprezível cultura em expressão corporal” influenciada pelo forte desenvolvimento da industrialização e civilização europeia”, a seguir aos períodos das duas guerras mundiais. Aos poucos, o Teatro vai entrando na minha formação académica, em forma de articulação com projectos teatrais, como foi o caso da concepção da peça Teatro–Dança: “Mambo Mortal”, realizado ainda nesse País. Esse espectáculo, encenado por mim, teve como base prática, a minha tese de licenciatura, subordinado ao tema – “A intervenção da expressão corporal em projectos interculturais de Teatro- Dança com jovens de minorias étnicas.”
Passado já alguns anos, e após muitas outras experiências e formações nesta área artística, fui assistir a uma Conferência sobre Beckett na Universidade do Algarve, desta vez com a coreógrafa Madalena Vitorino. Gostei imenso e fez-me sentir saudades da Pina Bausch. Perguntava-me a Madalena: Ainda lecciona Dança? Ao qual eu respondi-lhe: Sim, ainda há duas ou três escolas do Ensino Oficial Básico e Secundário no Algarve, que resistem em oferecer umas horitas, para esta disciplina. Eu tenho três turmas e inseri Rudolf Laban e Pina Bausch na minha planificação. Os miúdos adoram as aulas, e até têm um pouco de teoria, perspectiva histórica da Dança e metodologias da Dança, com a integração de composições coreográficas, segundo as concepções de Pina Bausch. Ai que bom trabalhar assim - Didáctica e método alemão, em pleno Algarve desconhecido. Sim, porque ainda há secretários gerais de Educação, que não fazem a mínima ideia onde fica a escola de Algoz. Saberão quem foi Pina Bausch? Que faleceu o ano passado e adorava Portugal?
Resumidamente, aqui fica a minha concepção de dança preferida, quer a leccionar, quer a coreografar ou encenar projectos performativos de Dança/Teatro.
O termo “Dança” é ainda hoje, muito frequentemente conotado com a palavra “Ballet” ou outras danças performativas que se encontram “na moda”, voltadas para a realização de espectáculos de entretenimento.
Resumidamente, aqui fica a minha concepção de dança preferida, quer a leccionar, quer a coreografar ou encenar projectos performativos de Dança/Teatro.
O termo “Dança” é ainda hoje, muito frequentemente conotado com a palavra “Ballet” ou outras danças performativas que se encontram “na moda”, voltadas para a realização de espectáculos de entretenimento.
Na Dança Educativa não há qualquer coreografia rígida, mas sim liberdade de movimentos estéticos e naturais. Não é relevante o ensino de técnicas, mas a espontaneidade de movimentos, que até por vezes pareçam disparatados e disformes. Por outras palavras, os seus movimentos não são regidos por qualquer concepção estética de expressão corporal. Na Dança Espectáculo, existe geralmente uma composição coreográfica, que é repetida e ensaiada até atingir um grau de perfeição e mecanização desejada.
O conceito de Dança de Pina Bausch, situa-se num nível intermédio destas duas interpretações, mais propriamente pelo sentido profissional que atingiu esta Companhia de Dança internacional. É que contrariamente ao conceito de Dança Espectáculo, Pina Bausch considera que não lhe interessa como o ser humano se move, mas sim o que os comove a mover, a dançar.
Curiosamente, o conceito de Dança de Pina Bausch entra em contradição com as definições mais clássicas de dança. O aspecto de partida do método de Pina Bausch não se situa, ao contrário das convenções artísticas que se manifestam por meio de um vocabulário tradicional, em códigos artísticos como por exemplo, repetição de movimentos expressivos e esteticamente bonitos: saltar, voar, rodopiar. Ela vai mais longe, distinguindo-se com códigos culturais, no seu sentido antropológico como por exemplo, movimentos funcionais e de transmissão de necessidades fisiológicas e psicológicas: comer, beber, amar, agredir, segurar um cigarro, matar um animal, fazer a barba, entre muitas outras. Esta coreógrafa nunca se questiona antes dos espectáculos, como é que a suas criações vão correr. Se vão ser bem aceites ou não pelo público. O espectador é convidado a realizar a sua própria interpretação, o seu juízo de valor, gerindo os seus próprios impulsos e as suas experiências estéticas. As suas criações, não são histórias corridas completas. Ela recorre a uma espécie de colagens de diversas cenas, que normalmente acontecem ao mesmo tempo e em paradoxo. Há quem lhe chame de “Patch-Work”, como que uma manta de retalhos, que se interliga com um determinado ambiente através da música, que por sua vez, nos leva para o caminho da imaginação.
A própria afirmava que, as sua criações eram provenientes de uma colecção de montagens, que não segue uma forma narrativa linear, mas uma sequência de múltiplos desenvolvimentos cénicos, como que fragmentos de uma multiplicidade de artes.
A dificuldade de interpretar imediatamente a mensagem que Pina Bausch nos quer passar, está na ausência de códigos de dança tradicionais a que estamos habituados. Ela transfere esses códigos para aquilo, a que chama de códigos gestuais. Portanto, é a coerência corporal que nos é posta em causa. Aliás nem sequer possuímos uma gramática universal para decifrá-la. Pina Bausch recusa-se a fornecer explicações ou até significações. Ela fala de emoções e influências que nada tem a ver com a racionalidade.