sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Formação Interpretação Teatral - I e II


 


No primeiro dia da formação, antes de entrar na sala, perguntei à Dra. Natalina Santos, enquanto coordenadora do Gabinete de Educação Artística e, participante nesta acção de formação, que sendo o grupo-alvo na sua maioria professores e animadores de projectos artísticos nas escolas, se não deveria encaminhar os objectivos da mesma, tendo como base a aplicação de exercícios e desenvolvimento de competências pedagógicas e artísticas através da Expressão Dramática. Nessa altura, desconhecia por completo, a excelente estrutura de apoio que está montada e disponível a esses técnicos de Educação Artística. A resposta da então formanda, foi de imediato, com conhecimento de causa: Não, não. Dê-nos teatro! A gente quer teatro!

Assim que reuni com os 19 formandos para as respectivas apresentações, vi no olhar daquelas pessoas, uma enorme disponibilidade para a aprendizagem. Diáriamente o aquecimento era realizado em círculo, como meninos (as) que se sentam numa roda, disponíveis para ouvirem ou contarem uma história. No sentido concreto e não transcendental de acções no teatro. É, no teatro vê-se tudo. Não dá para enganar. Isto não é só experiência. É também ciência comprovada.
E assim foi até ao fim. Todos diferentes, todos iguais. Uns mais disponíveis. Outros com as suas defesas. Uns com a ingenuidade de uma criança. Outros recheados de fugas e truques que vamos adquirindo inconscientemente durante a vida. Também no teatro. Aquilo a que chamamos de máscaras sociais.
As sessões foram iniciadas sempre em círculo. Curiosamente, também senti que na Madeira, circular para além de obrigatório, é saudável. Desde do acolhimento por parte das pessoas, à dinâmica que envolve aquele gabinete de Educação Artística até à disponibilidade para a aprendizagem de exercícios, circular, foi a base da formação. Simplesmente olhar uns para os outros. Um outro exemplo disso mesmo foi o exercício de integração - Axé- Axé.
Ninguém foi obrigado a nada. Foram todos solicitados. No teatro, ao contrário da vida, somos convidados a parar. Ou seja, a estarmos ali inteiros e indefesos. Isso leva-nos muitas vezes, à insegurança. À falta de concentração, à fuga suprema de nós - tentando por múltiplas vias criativas e expressivas, “querer fazer tudo bem” ou querer “conseguir” dar uma imagem de sucesso aos outros, esquecendo que é precisamente nestas situações que ficamos presos a uma imagem nossa sem (re)criação artística.    Eu julgo que sentiram e aprenderam isso. Conversámos e, sentimos todos a necessidade de mais tempo para reflexões pedagógicas.







A interpretação teatral, no meu entender, tem de ser fiel a si próprio e às premissas do encenador ou texto. O actor tem de entregar, com tudo de bom e de mau que ele possa ter. Por isso é que factores da cumplicidade, humildade e confidencialidade, são muito importantes na minha ética do teatro. Aliás, a melhor avaliação do vosso exercício final, foi de uma menina chamada Catarina que disse: “Não percebi muito bem a história, mas pareciam actores de verdade!” Sem grandes adereços e figurinos, conseguiram por breves momentos, travar a respiração da senhora do bar das instalações. Conseguiram arrepiar-me e fazer-me sentir orgulhoso do trabalho desenvolvido. Até uma próxima oportunidade!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Reflexão sobre mais uma reforma do Ensino Artístico

REFORMAR A EDUCAÇÃO não poderá significar, CORTAR com a EDUCAÇÃO (ARTÍSTICA)
Até percebo que em consequências da inevitável globalização e sucessivas crises económicas mundiais, quase todos os sistemas educativos públicos do planeta, estejam em processos de reforma e cortes orçamentais. Portugal com a agravante de ser um País corrupto, não foge à regra. Mas o grande erro dos políticos, é acreditar que devemos seguir modelos educativos de experiências pertencentes ao passado. No nosso caso, copiar modelos europeus mais avançados, não se adequam por inúmeras razões ao nosso contexto sócio-cultural. Eu já me vou habituando, que por cá, as reformas em vez de investirem nos professores, são concebidas para colocarem à prova os mesmos. Não faz sentido: as pessoas estão mais motivadas para ensinar, quando compreendem as suas vocações, as suas capacidades e os seus desafios. Os grandes professores não são aqueles que ensinam bem uma determinada matéria, mas aqueles que educam os alunos como mestres da vida.
No entanto, o nosso sitema educativo limita-nos para esse preceito. Está cada vez mais estrangulado de burocracia, que é constantemente alterada aos ventos de cada governação. Os Secretários Gerais de Educação têm sido todos profissionais típicos de Gabinete. No caso específico da Educação Artística, têm sido uma lástima. Alguns saltam de Ministério para Ministério, tal é a polivalência.

Acrescenta-se a esta fatalidade dos sucessivos governos em Portugal o problema do grande ênfase à avaliação. Não sou contra isso. A questão é que entrámos mais uma vez, num sistema insaciável de burocracia, não como referenciais do desenvolvimento do aluno, mas como um justificativo, por si só.


Quando analiso textos de peças de teatro com os alunos, reparo que escrevem e lêem mal. Quando partilho que deveriam ser ajudados e estimulados pelos professores de Língua Portuguesa, partilhando o gosto pela leitura e escrita aos alunos, os mesmos, queixam-se porque têm de preparar os alunos para inúmeros testes intermédios e exames. O mesmo acontece com os professores das Ciências Exactas. No entanto, há tanta objectividade e rigor na Arte, assim como há muita paixão e intuição na Ciência. A Articulação com o teatro ou com a dança pode possibilitar um programa dinâmico e motivador para os alunos. Para isso, era gratificante que os professores tivéssem mais tempo, sem tantas reuniões e obrigações estandardizadas de cumprimentos de planos programáticos e tudo mais.


As crianças aprendem sempre melhor quando aprendem umas com as outras e quando os professores aprendem com elas. Qualquer professor, sabe ver no olhar de um aluno, se este está motivado para uma determinada matéria e feliz por estar na escola. O ensino tem de se centrar nelas, mas num ambiente propício, onde todos possam interagir, resolver problemas. Aprender a comunicar e a relacionar-se com eficácia e debater com confiança. As escolas deveriam encorajar os professores a desenvolverem esta relação com os alunos, contrariamente ao caminho traçado pelos políticos do Ministério da Educação, em que me deparo com reformas meramente economicistas, estandardizadas e injustas, alimentando a política do malmequer: Professor - bem te quero, professor mal te quero. No meu entender, é uma vergonha.
Esta indignação cresce ainda mais, quando sei muito bem que no domínio sócio-afectivo, através da dança ou teatro, a qualidade geral das questões fundamentais relacionadas com o comportamento podem melhorar espectacularmente. Consequentemente o combate ao abandono escolar também. Este ano lectivo, tenho realizado um trabalho, no sentido deidentificar a Dança e o Teatro como vias de Expressão Artística e desenvolver o sentido crítico e ético na relação com espaços concebidos culturalmente de Dança e Teatro. As turmas do 8ºano, que possuem pela primeira vez na vida, aulas de Dança têm-me surpreendido de uma forma bastante disponível e criativa. Na sua grande maioria, apresentam-se com uma noção de Dança baseada em clichés, tais como: “A dança não é para rapazes/homens” ou por outro lado, apresentam-se com ideias muito difusas de estilos, como o Hip-Pop ou Street-Dance, provenientes de vídeo-Clips ou do naturalismo televisivo das novelas para jovens, que geralmente passam  a ideia dualista dos jovens dançarinos nas escolas: Ou são vedetas e muito bons, ou não dançam nada e são considerados cromos!

Quebrar estas barreiras de inicio não é fácil, mas agora já fazem ideia do que é a dança educativa ou dança expressiva, a partir de gestos e movimentos simples. Já começam a saber quem foi Rudolf Laban, Isadora Duncan e Pina Bausch. Paralelamente, desenvolvem competências sociais concretas
em contexto de sala de aula sem grandes espalhafatos e atitudes de superioridade ou desconfiança perante os outros. Aprendem que a Dança e o Teatro, só se consegue fazer qualitativamente se, estiverem disponíveis perante os outros e se trabalharem com método, concentração e rigor. Conseguindo este patamar – deixem-nos fluir, dançar, voar! Garanto-vos que o resultado é surpreendente!
Na área da Expressão Dramática, trabalho com eles o Teatro de fantoches, Teatro de máscaras, Teatro sombras chinesas, Teatro negro e Teatro humano. Na sua grande maoria, e já cheguei a ter doze turmas de Expressão Dramática durante anos lectivos consecutivos, não se esquecem do material necessário à consecução de cenários. Todos querem participar, e há sempre lugar para os alunos mais tímidos ou com com pouca auto-estima e também, aqueles com necessidades educativas especiais, que acabam por se integrarem e revelarem boas capacidades relacionais, de expressão e comunicação como os outros.

Quando sinto, que os meus alunos gostam das minhas aulas e eu sinto que tenho a minha vocação. Não meramente um emprego, só me apetece dizer:  Procuram-se novos políticos - mais competentes, mais criativos e mais conscientes na implementação de reformas do ensino da Educação (Artística).